domingo, 21 de novembro de 2010

OS COMPADRES CORCUNDAS


       Era uma vez, dois compadres corcundas, um Rico outro Pobre. O povo do lugar vivia zombando da corcunda do Pobre e não reparava no Rico. A situação do Pobre andava preta, e ele era caçador. 
            Certo dia, sem conseguir caçar nada, já tardinha, sem querer voltar para casa, resolveu dormir ali mesmo no mato. 
            Quando já ia pegando no sono ouviu uma cantiga ao longe, como se muita gente cantasse ao mesmo tempo. 
            Saiu andando, andando, no rumo da cantiga que não parava. Depois de muito andar, chegou numa clareira iluminada pelo luar, e viu uma roda de gente esquisita, vestida de diamantes que brilhavam com a lua. Velhos, rapazes, meninos, todos cantavam e dançavam de mãos dadas, o mesmo verso, sem mudar: 

    Segunda, Terça-feira, 
    Vai, vem! 
    Segunda, Terça-feira, 
    Vai, vem!
 

            Tremendo de medo, escondeu-se numa moita e ficou assistindo aquela cantoria que era sempre a mesma, durante horas. Depois ficou mais calmo e foi se animando, e como era metido a improvisador, entrou no meio da cantoria entoando: 

    Segunda, Terça-feira, 
    Vai, vem! 
    E quarta e quinta-feira, 
    Meu, bem!
 

            Calou-se tudo imediatamente e aquele povo espalhou-se procurando quem havia falado. Pegaram o corcunda e o levaram para o meio da roda. Um velhão então perguntou com voz delicada: 
            --- Foi você quem cantou o verso novo da cantiga? 
            --- Fui eu, sim Senhor! 
            --- Quer vender o verso? - perguntou então o Velhão. 
            --- Quero sim, senhor. Não vendo não, mas dou de presente porque gostei demais do baile animado. 
            O Velho achou graça e todo aquele povo esquisito riu também. 
            --- Pois bem - disse o Velhão - uma mão lava a outra. Em troca do verso eu te tiro essa corcunda e esse povo te dá um Bisaco novo! 
            Passou a mão nas costas do caçador e a corcunda sumiu. Lhe deram um Bisaco novo e disseram que só o abrisse quando o sol nascesse.                                                                                                                                                                            O Caçador meteu-se na estrada e foi embora. Assim que o sol nasceu abriu o bisaco e o encontrou cheio de pedras preciosas e moedas de ouro. 
            No outro dia comprou uma casa com todos os móveis, comprou uma roupa nova e foi à missa porque era domingo. Lá na igreja encontrou o compadre rico, também corcunda. Este quase caiu de costas, assombrado com a mudança. Mais espantado ficou quando o compadre, antes pobre e agora rico, contou tudo que aconteceu ao compadre rico. 
            Então cheio de ganância, o rico resolveu arranjar ainda mais dinheiro e livrar-se da corcunda nas costas. 
            Esperou uns dias e depois largou-se no mato. Tanto fez que ouviu a cantoria e foi na direção da toada. Achou o povo esquisito dançando numa roda e cantando: 

    Segunda, Terça-feira, 
    Vai, vem! 
    Quarta e quinta-feira, 
    Meu, bem!
 


             O Rico não se conteve. Abriu o par de queixos e foi logo berrando:

    Sexta, Sábado e Domingo,
    Também! 


           Calou-se tudo novamente. O povo esquisito voou para cima do atrevido e o levaram para o meio da roda onde estava o velhão. Esse gritou furioso:
            --- Quem mandou se meter onde não é chamado seu corcunda besta? Você não sabe que gente encantada não quer saber de Sexta-feira, dia em que morreu o filho do alto; sábado, dia em que morreu o filho do pecado, e domingo, dia em que ressuscitou quem nunca morre? Não sabia? Pois fique sabendo! E para que não se esqueça da lição, leve a corcunda que deixaram aqui e suma-se da minha vista senão acabo com seu couro!
            O Velhão passou a mão no peito do corcunda e deixou ali a corcunda do compadre pobre. 
Depois deram uma carreira no homem, que ele não sabe como chegou em casa. 
            E assim viveu o resto da sua vida, rico, mas com duas corcundas, uma na frente e outra atrás, para não ser ambicioso. 

O VELHO AMBICIOSO


            Um Velho tinha um filho muito trabalhador. Não podendo ganhar a vida como desejava em sua terra, despediu-se do pai e seguiu viagem para longe a fim de trabalhar. 
            A princípio mandava notícias e dinheiro mas depois deixou de escrever e o velho o julgava morto. 
            Anos depois, numa tarde, chegou à casa do velho um homem e pediu abrigo por uma noite. Durante a ceia conversou pouco e deitou-se logo para dormir. O velho notando que o desconhecido trazia muito dinheiro, resolveu matá-lo. 
            Relutou muito mas acabou cedendo à ambição e tentação e assassinou o hóspede, enterrando-o no quintal do sítio. Voltou para a sala e abriu a mala do morto. 
            Encontrou ali as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa. 
            Cheio de horror, o pai matador foi entregar-se à justiça e morreu na prisão, carregado de remorsos.

sábado, 6 de novembro de 2010

LENDA DA CANA DE AÇÚCAR

            Dizem que Jesus Cristo passava por uma estrada em um dia de sol muito forte e que por isso ele morria de fome e de sede.

            Em meio a estrada ele avistou um canavial e resolveu sentar-se numa sombra entre as folhas, refrescando-se do calor, descansando, chupando os gomos da cana e enfim, matando sua fome.
            Ao sair, abençoou as canas, prometendo que delas o homem havia de tirar um alimento bom e doce.
            No outro dia, na mesma hora, o diabo saiu do fogo do inferno, com os chifres e o rabo queimados. Galopando pela estrada, foi dar no mesmo canavial. Mas, desta vez, as canas soltaram pelos e o caldo estava azedo, e queimou-lhe a garganta.
            O diabo, furioso, prometeu que da cana o homem tiraria uma bebida tão ardente como as caldeiras do inferno.

            Conclui-se então que da cana se tira o açúcar, bênção de Nosso Senhor, e a cachaça, maldição do diabo.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O ANIVERSÁRIO DA MACACA


É uma macaca bem diferente.
Nem bem amanheceu o dia já cantarola pela sala com ares de contente!
É uma macaca muito pra frente!
A macaca animada acordou dando risada.
De hoje e um mês no calendário, a macaca conta os dias para seu aniversário.
Não está bem certa a macaca se fará uma festa das boas, ou um almoço para poucas pessoas.
Tem uma idéia brilhante a macaca, fã de banana!
Não será uma festa comum, vai ser festa do pijama!
A macaca pensa se serve pastel de vento para esse evento ou bobó de camarão para essa ocasião.
A macaca vaidosa costura uma camisola cor-de-rosa.
Até que enfim chega o dia esperado da macaca ter seu aniversario festejado!
Enfeita-se toda a magrela com tudo que há de bom; escova a cabeleira, põe fita, passa perfume e batom.
Estou pronta! disse a macaca, mas cadê os convidados?
A macaca olha para os lados sem saber o que dizer.
Esqueceu os convites no armário da cozinha: só lhe resta sentar e ficar ali sozinha…
Dim! dom! fez a campainha.
E foram entrando os amigos na maior animação, cada qual mais alinhado, com um presente na mão.
A macaca espantada ficou muitíssimo radiante!
Era uma festa surpresa para a aniversariante!
--- Daqui para frente, macaca, não seja tão distraída!
Feliz aniversário e muitos anos de vida!

domingo, 17 de outubro de 2010

O TAPETINHO VERMELHO

            Uma pobre mulher morava em uma humilde casinha com sua neta muito doente.
            Como não tinha dinheiro sequer para levá-la a um médico, e vendo que, apesar de seus muitos cuidados e remédios com ervas, a pobre criança piorava a cada dia, resolveu iniciar a caminhada de 2 horas até a cidade próxima em busca de ajuda.
            Chegando no único hospital público da região foi aconselhada a voltar para casa e trazer a neta junto, para que esta fosse examinada.
            Quando ia voltando, já desesperada por saber que sua neta não conseguia sequer levantar da cama, a senhora passou em frente a uma Igreja e como tinha muita fé em Deus, apesar de nunca ter entrado
em uma Igreja, resolveu pedir ajuda.
            Ao entrar, encontrou algumas senhoras ajoelhadas no chão fazendo orações. As senhoras receberam a visitante e, após se inteirarem da história, a convidaram para se ajoelhar e orar pela criança.
            Após quase uma hora de fervorosas orações e pedidos de intercessão ao Pai, as senhoras já iam se levantando quando a mulher lhes disse:
            -- Eu também gostaria de fazer uma oração
            Vendo que se tratava de uma mulher de pouca cultura, as senhoras retrucaram:
            -- Não é necessário, com nossas orações, com certeza sua neta irá melhorar.
            Ainda assim a senhora insistiu em orar, e começou:
            -- Deus, sou eu, olha, a minha neta está muito doente Deus, assim eu gostaria que você fosse lá curar ela. Deus, você pega uma caneta que eu vou dizer onde fica.
            As senhoras estranharam, mas continuaram ouvindo.
            -- Já está com a caneta Deus? Você vai seguindo o caminho daqui de volta para Belo Horizonte e quando passar o rio com a ponte você entra na segunda estradinha de barro. Não vai errar, tá?
            A esta altura as senhoras já estavam se esforçando para não rir, mas ela continuou:
            -- Seguindo mais uns 20 minutinhos tem uma vendinha. Entra na rua depois da mangueira que o meu barraquinho é o último da rua. Pode ir entrando que não tem cachorro.
            As senhoras começaram a se indignar com a situação...
            -- Olha Deus, a porta tá trancada mas a chave fica embaixo do tapetinho vermelho na entrada. O senhor pega a chave, entra e cura a minha netinha.
            Mas olha só Deus, por favor não esquece de colocar a chave de novo embaixo do tapetinho vermelho senão eu não consigo entrar quando chegar em casa...
            A esta altura as senhoras interromperam aquela ultrajante situação dizendo que não era assim que se deveria orar, mas que ela poderia ir pra casa sossegada pois elas eram pessoas de muita fé, e Deus, com certeza, iria ouvir as preces e curar a menina.
            A mulher foi pra casa um pouco desconsolada, mas ao entrar em sua casinha sua neta veio correndo lhe receber.
            -- Minha neta, você está de pé, como é possível?
            E a menina explicou:
            -- Eu ouvi um barulho na porta e pensei que era a senhora voltando, porém entrou em meu quarto um homem muito alto, com um vestido branco e mandou que eu levantasse. Não sei como, eu simplesmente levantei.
            E quase em prantos, a menina continuou:
            -- Depois ele sorriu, beijou minha testa e disse que tinha de ir embora, mas pediu que eu avisasse a senhora que ele ia deixar a chave embaixo do tapetinho vermelho...

O SONHO DA PRINCESA

             Esta é a história de uma princesinha muito corajosa. Mas antes de falar dela, vou apresentar-lhe seu pai, o rei.
            O rei era viúvo é tinha três filhas: Carolina, Vanessa  e Clara. Cada uma possuía um dom diferente.
            Carolina, a mais velha, tinha a pele dourada e os olhos cor de mel; seu dom era o do canto. Cantava como um pássaro. Todas as manhãs, ao acordar, ela presenteava seu pai com um pequeno recital, em que cantarolava e assoviava, lembrando as melodias entoadas pelos bem-te-vis, rouxinóis e pardais.
            Vanessa, a filha do meio, era loira e tinha os olhos azuis como o céu. Seu dom era o da culinária. Ela sabia fazer os docinhos mais delicados e deliciosos do mundo. Cajuzinho, brigadeiro, quindim, beijinho, cocadinha --- tudo em que punha a mão ficava macio e apetitoso.
            Os doces pareciam pequenas pedras preciosas e deliciavam o rei e as princesinhas a cada manhã.
            Clara, a mais nova tinha a pele branca e a face rosada e cabelos longos e vermelhos como o fogo. Eram tão brilhantes, os cabelos, que refletiam a luz e imaginavam tudo, como se espelhassem a alma das outras pessoas. Clara tinha um dom especial. Ele sentia o que as pessoas e tinha sonhos premonitores.  Tudo que sonhava se realizava.
            O que ainda não contei é que o rei, embora tivesse orgulho de suas filhas, era um homem muito rígido, Qualquer desvio era motivo de punição. Por isso, as três princesas cumpriam tudo aquilo que ele ordenava.
            Clara era a que mais sofria, pois todas as manhas o rei lhe perguntava sobre o que havia sonhado. Ele desejava saber de antemão o que aconteceria em seu reino. Para agradar ao pai e soberano, a menina obedecia sem pestanejar.
            Certo dia aconteceu uma verdadeira tragédia! Clara teve um sonho que iria mudar o destino de todos. E quando o rei lhe fez a pergunta de todos os dias, ela não teve saída a não ser contar a verdade...
            ---- Meu rei, eu sonhei que vivia num castelo maravilhoso e que todos os reis do mundo vinham beijar–me a mão, inclusive o senhor.                                       
            ---  Que está dizendo sua insolente? --- perguntou o pai furioso. --- Isso é um absurdo! Eu sou rei! Você é quem deve me beijar a mão! Estou indignado com seu atrevimento!!!
            O rei ficou mesmo uma fera. Furioso. Vermelho de raiva. Roxo de fúria. Não suportava ouvir que sua filha pudesse se tornar mais poderosa do que ele próprio. Sua arrogância era tão grande quanto seu reino; seu orgulho tornava-o cego, surdo, e mudo, e fazia congelar seu coração.
            --- Vou mandar cortar-lhe todo o cabelo. Depois, você será expulsa deste castelo. Quero que suma da minha frente, para e que nunca mais eu tenha de me lembrar dessas palavras absurdas!
            A princesinha ficou imensamente triste. Tão triste que se tornou a imagem da própria tristeza. Nada tinha a dizer em sua defesa. Não que tivesse do que se defender, pois seu único pecado tinha sido dizer a verdade. Clara só teve tempo de dar um abraço em suas irmãs antes de adentrar a floresta, acompanhada de um dos soldados de seu pai, que havia sido incumbido de lhe cortar a linda cabeleira mágica.
            O soldado, contudo, teve compaixão da menina. Ficou com tanta pena que resolveu desobedecer um pouquinho a ordem do rei: cortou apenas alguns cachos de seu cabelo e trançou-os com uma palha bem fininha que tirara de uma árvore da floresta. Colocou a trancinha num pequeno baú, cobriu-a com um tule branco e enviou-a para o rei.
            Naquela floresta enorme e escura, sozinha, a princesinha parecia um grão de areia. As árvores gigantes e copadas lhe davam arrepios. Longe do castelo pela primeira vez, Clara sentiu medo.
            De repente, entre as árvores como num passe de mágica, abriu-se uma grande porta que a convidava a entrar. Apesar de assombrada, a menina resolveu aceitar o convite.
            Assim que Clara entrou, lhe foi servido um delicioso jantar. Havia de tudo naquela mesa: peixe, água fresca, cajuada, doce de jenipapo. Assim que ela se sentou, surgiu à sua frente um belo rapaz, que lhe abriu um sorriso
            --- Faz muito tempo que observo você, Clara. Entre todas as moças de todos os reinos deste mundo, você é a mais bonita, a mais bondosa e a mais talentosa  Por isso, gostaria que se tornasse  minha esposa e companheira.
            Apesar de ter gostado do rapaz e das coisas que lhe dissera, Clara engasgou de susto.
            --- Mas eu nem o conheço! --- declarou a jovem, boquiaberta.
            Então o moço acrescentou:
            --- Você pode ficar hospedada neste castelo mágico. Assim, poderá me conhecer sem presa.
            Clara, que não tinha mesmo para onde ir,concordou.
            Um ano se passou. E com a convivência, Clara se apaixonou pelo rapaz, que era, na verdade, o rei mais poderoso dentre todos.
            --- Eles marcaram a data do casamento e convidaram os reis de todos os reinos, mesmos dos mais distantes, inclusive o pai de Clara, para compartilhar aquele emocionante acontecimento.
            Quando o rei a viu, mais bela do que nunca, com seus longos cabelos vermelhos espelhados de tanto brilho e a sua pele branquinha como o vestido da noiva que usava, começou a chorar de arrependimento. Na verdade sentia uma saudade imensa da filha.
            A princesa que sentia uma saudade igualmente grande e que compreendeu a fragilidade do pai, chegou pertinho do rei e declarou:
            --- Ah, meu pai, não sofra mais! Eu o perdôo por te me expulsado do castelo. O orgulho lhe cegou, mas eu não me deixei cegar pelo rancor.
            E, assim dizendo, deu-lhe um abraço bem apertado, fazendo as pazes com ele.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A BORBOLETA AZUL

            Havia um viúvo que morava com suas duas filhas curiosas e inteligentes.    As meninas sempre faziam muitas perguntas. 
            Algumas ele sabia responder, outras não. 
            Como pretendia oferecer a elas a melhor educação, mandou as meninas passarem férias com um sábio que morava no alto de uma colina. 
            O sábio sempre respondia todas as perguntas sem hesitar. 
Impacientes com o sábio, as meninas resolveram inventar uma pergunta que ele não saberia responder. 
            Então, uma delas apareceu com uma linda borboleta azul que usaria para pregar uma peça no sábio. 
            --- O que você vai fazer? - perguntou a irmã. 
            --- Vou esconder a borboleta em minhas mãos e perguntar se ela está viva ou morta. 
            --- Se ele disser que ela está morta, vou abrir minhas mãos e deixá-la voar. Se ele disser que ela está viva, vou apertá-la e esmagá-la. E assim qualquer resposta que o sábio nos der estará errada ! 
            As duas meninas foram então ao encontro do sábio, que estava meditando. 
            ---Tenho aqui uma borboleta azul. Diga-me sábio, ela está viva ou morta? 
            Calmamente o sábio sorriu e respondeu: 
            --- Depende de você... ela está em suas mãos. 


Assim é a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro. 
Não devemos culpar ninguém quando algo dá errado.